terça-feira, 5 de abril de 2011

Eu o vi caminhando ao longe, como quem tenta se prender ao chão, como quem se perde em sonhos diurnos.
Eu o vi movimentando os pés, um na frente do outro.
O vento tocando-lhe o cabelo, suas mãos batendo na perna, seguindo um ritmo que só existia em sua mente.
Eu o vi se perdendo no trevo logo em frente. Virando a esquerda, ao invés da direita, sem saber bem porque.
Eu o vi respirar areia, assoprando pra sair, tossindo pra não se afogar.
Eu o vi rastejando por pedras atrás de uma flor lilás, pura apenas para seus olhos, e imune apenas para seu toque.
Eu o vi rezar para que a praga fosse embora e deixasse seus morangos crescerem.
Destruiu muros, construiu cataventos.
Perdeu-se no tempo, calou-se de ouvir. Machucou-se por cegueira.
Eu o vi sentado na praia, cavando um túnel que chegaria no Japão, pra de lá ir para a Lua.
Eu o escutei quando disse que foi pescar peixes num aquário, e que as verdadeiras aves não estão no céu.
Eu o vi fugindo de casa, correndo pra terra.
Compondo uma canção que jamais seria ouvida a não ser por mim.
Que me escondia tão bem por detrás de sua sombra...

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