Fim de noite na rua pra mim é sempre triste. Festas me animam, mas na hora de ir embora eu deprimo. Incrível o sentimento de vazio que eu sinto nessas horas, uma ausência de alguém, vontade de correr, fugir pra um lugar em que eu fique bem, abraçar algum corpo quente, que me diga "está tudo bem". Há cerca de um ano eu descobri uma pessoa que acalmasse isso. Alguém pra eu escrever uma carta de esperança quando chego em casa, e um lugar em que eu sabia que sempre seria bem vinda. Conversávamos por MSN, álias, já haviamos nos conhecido há muito tempo, quando eu tinha uns 13, 14 anos. Ele tinha mudado muito, abandonou a vida que antes levava, pra seguir pelo mundo, viver a liberdade. Eu o admirava muito, fiz planos de ir com ele, passar um tempo, que fosse. Mas sentia uma imensa necessidade de estar perto dele, talvez pela segurança que me passava, não sei... desde aquele tempo em que nos conhecemos eu sentia uma certa "atração"por ele. Eu era apenas uma criança, e ele amava a namorada dele, porém buscava um amor maior, "cansei de brincadeiras" ele me dizia. 4 ou 5 anos depois, nos encontramos, confesso que fiquei surpresa com sua aparência, e até um pouco assustada no começo. Conversamos, ele me falou coisas bonitas, me deu uma flor, que infelizmente eu a perdi. Depois, na hora do tchau, ele me disse que estava diante dele desde aquele tempo, mas que ele não pôde ver, ou talvez ainda não fosse pra ser, mas que era eu. Pediu uma chance, eu tremi, não sabia o que dizer. Tava indo pra Florianópolis estudar Cinema, cheia de planos, queria deixar tudo pra tráz, e aí apareceu ele, e me balançou demais. Não nos vimos por um tempo. Ele apareceu novamente no MSN, lembro muito bem como eu tava me sentindo quando ele falou comigo. Foi uma surpresa tão grande. Eu tava tão mal naquele dia, tinha tomado uns remédios, tava deprimida, mais uma vez. Foi como um sinal! E então retomamos o contato, fizemos planos. Ele me mandou carta, me ligou. Sempre mantinha contato, sumia por um tempo, depois voltava. Eu não me preocupava, confiava nele cegamente. Me enxi de planos. O mundo que ele me falava era tão belo, e eu queria largar tudo, me sentia tão perdida, apesar de ter amigos tão legais e que hoje são de extrema importância pra mim. Considerei a idéia de trancar a faculdade, ele sugeriu ter calma, disse que me esperaria. Nos encontramos novamente em julho. Eu tremia. Tava tão nervosa. Não sabia o que diria, tinha a impressão de que estava cometendo um erro, e eu não queria fazê-lo sofrer. A verdade é que fiz. E sei que fiz. E não só uma vez, mas três.
Ele fazia meu coração acelerar, mas de alguma forma, eu sentia que aquele não era o momento. E eu queria ter coragem de dizer isso a ele. Pra ter um pouco mais de paciência. Pra não desistir de mim, mas me esperar. Eu amava ele, e eu tinha medo. Medo de como ía ser, medo de perder a minha solidão, medo de deixar de ser quem eu era. E medo de fazê-lo sofrer ainda mais. Pedi que fosse embora, e me senti a pior pessoa do mundo. Pedi que me chingasse, dissesse coisas horríveis, e tudo que ele disse foi "pra quê?". Ele tava lá, e de manhã havia ido embora, sem dizer nada. Exatamente uma semana depois, ele voltou. Acabado, sofrido, desiludido, decepcionado. E o pior, era culpa minha. Eu tinha vontade de abraçar ele e pedir que ficasse, eu conseguiria mudar alguns hábitos dele, eu sei disso. Mas eu tinha medo, e hoje eu vejo que era medo. Ele foi embora de novo... porém não deixou de falar comigo. Acordava de manhã e tinha recados dele no msn, me chamando.
A última vez que nos vimos, ele tinha um brilho nos olhos tão intenso. Um sorriso que parecia de outro mundo. Um sorriso de menino quando consegue alguma coisa, mas ao mesmo tempo, um sorriso triste. Queria conversar. Eu não podia, ou não queria. Lembro dele me dizendo que devia ter brigado comigo... me contou que ía passar o Reveillon no Psicodália, e que ía pra fora do Brasil esse ano. Meu irmão chegou e participou da conversa. Nada mais relacionado a isso. Eu fui pra casa com meu pai, estávamos indo viajar. E é aí que esta a última imagem que eu tive dele, eu estava entrando no carro, ele me olhava, com aquele brilho! Aquela serenidade!!
Eu me arrependo de tanta coisa que eu não disse. Tenho medo de ser a culpada, de ter podido ajudar, e nada ter feito. Tenho medo de esquece-lo. Não quero que se apague o sorriso dele da minha memória. A voz. O ohar, o jeito dele me olhar. Escuto a música e penso, as vezes me lembro de algumas coisas mais que me disse, outras, sinto que vou esquecendo. Ando na rua ainda com a sensação de que vou encontrá-lo. Como quando fui no mercado, eu tava indo, e ele vindo. Me olhando, com aquele sorriso...
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